Do trauma ao testemunho: notas para uma leitura do romance de Kaveh Akbar, Mártir, à luz de Ferenczi e da Transmissão Psíquica
Trabalho final de semestre apresentado à Formação Freudiana, no módulo Lendo Ferenczi, coordenado pelo Prof. Alexandre Costa (julho 2026).
“Há livros que chegam exatamente quando determinadas perguntas já estão sendo formuladas em nós. Talvez não tragam respostas. Mas reorganizam as perguntas.”
Apresentação
Mártir, romance de estreia de Kaveh Akbar, acompanha a trajetória de Cyrus Shams, um jovem poeta iraniano-americano cuja vida é atravessada por perdas precoces, deslocamentos culturais e pela constante tentativa de atribuir sentido à experiência da morte. Filho de imigrantes iranianos, Cyrus cresceu marcado pela ausência materna e por uma história familiar profundamente afetada pela guerra, pelo exílio e pelas rupturas que acompanham os processos migratórios.
Em recuperação do alcoolismo e buscando reorganizar sua própria existência, Cyrus desenvolve uma intensa fascinação pela figura dos mártires. Sua busca o conduz por histórias de pessoas marcadas pelo sacrifício, pela morte e pela memória, enquanto a narrativa alterna diferentes tempos e perspectivas, revelando como acontecimentos históricos e familiares continuam produzindo efeitos muito além da geração que os viveu.
Ao longo do romance, questões como pertencimento, identidade, luto, espiritualidade, dependência química e criação artística entrelaçam-se na tentativa de responder a uma pergunta fundamental: como construir uma vida quando a própria história parece ter sido escrita por perdas anteriores ao sujeito?
Mais do que narrar uma trajetória individual, Mártir convida o leitor a refletir sobre aquilo que permanece vivo nas famílias mesmo quando já não pode ser nomeado. É justamente essa dimensão que torna o romance um terreno fértil para o diálogo com a psicanálise, especialmente com os estudos de Sándor Ferenczi sobre trauma, desmentido e transmissão psíquica.
Foi nesse contexto que o livro chegou até mim.
Recentemente, recebi Mártir, lançamento da Editora Rocco, por meio do Clube do Livro que coordeno em parceria com a editora. A coincidência temporal dessa leitura chamou minha atenção. Nas últimas semanas eu estava profundamente imersa nos estudos de Sándor Ferenczi, sobretudo em sua teoria do trauma, da confusão de línguas e do desmentido, desenvolvendo reflexões sobre transmissão psíquica, violência e constituição do sujeito.
Foi justamente nesse contexto que o romance começou a me interpelar. Não porque ilustrasse conceitos psicanalíticos de maneira direta, mas porque parecia colocar em cena uma questão que atravessa tanto a literatura quanto a clínica:
O que acontece quando uma experiência traumática não encontra um testemunho capaz de reconhecê-la?
Essa pergunta reposiciona a compreensão tradicional do trauma. Em Ferenczi, o trauma não se reduz ao acontecimento violento. O que verdadeiramente traumatiza é a impossibilidade de encontrar um outro que reconheça a experiência vivida. O sofrimento torna-se insuportável quando é desmentido, silenciado ou transformado em algo que não pode ser inscrito na linguagem.
Essa formulação produz um efeito importante sobre a compreensão da transmissão entre gerações.Costuma-se dizer que o trauma é transmitido. A literatura psicanalítica desenvolveu amplamente essa ideia ao mostrar que lutos interrompidos, segredos familiares, violências não simbolizadas e silêncios persistem muito além daqueles que originalmente os viveram. A transmissão psíquica não consiste na passagem literal dos acontecimentos, mas na circulação de lugares, afetos, identificações e posições subjetivas que antecedem o nascimento de cada sujeito.
No entanto, durante essa aproximação inicial com Mártir, uma outra hipótese começou a ganhar força. Talvez o que seja transmitido entre gerações não seja apenas o trauma.
Talvez também se transmita a necessidade de testemunhá-lo.
Essa hipótese nasceu de uma curiosa aproximação etimológica. A palavra mártir deriva do grego martys, cujo significado original é testemunha. Antes de designar aquele que morre por uma causa, o mártir era aquele que testemunhava. Essa diferença é decisiva pois ela desloca a discussão da morte para a linguagem; do sofrimento para sua inscrição simbólica; da violência para a possibilidade de narrá-la.
Sob essa perspectiva, o romance parece abrir uma questão que ultrapassa a experiência individual de seus personagens e toca um problema central da clínica contemporânea:
seria possível compreender determinados sujeitos como herdeiros não apenas de traumas, mas também da tarefa de testemunhar aquilo que permaneceu sem palavra nas gerações anteriores?
Essa pergunta dialoga profundamente com Ferenczi. Se o trauma se instala quando a experiência não encontra reconhecimento, talvez a elaboração psíquica dependa precisamente da possibilidade de construir um testemunho. Não um relato factual, mas uma narrativa capaz de reinserir o sofrimento no campo da linguagem e da relação com o outro.
Essa hipótese também desloca a própria compreensão da transmissão psíquica. Ao longo dos últimos anos, tornou-se relativamente comum afirmar que os traumas atravessam gerações. Menos frequente, entretanto, é perguntar o que exatamente é transmitido.
Seriam apenas os efeitos da violência? Ou haveria também uma transmissão da necessidade de lembrar, narrar e dar testemunho daquilo que permaneceu excluído da história familiar?
Essa distinção talvez seja fundamental. Enquanto a transmissão do trauma tende a enfatizar a repetição do sofrimento, a hipótese aqui proposta introduz uma dimensão ética.
Ela não pergunta apenas como o sofrimento se perpetua, mas o que cada geração faz com a herança que recebeu.
Essa questão aproxima a psicanálise da literatura. Os grandes romances frequentemente não narram apenas acontecimentos. Narram sujeitos que tentam encontrar uma linguagem para experiências que pareciam destinadas ao silêncio.
Talvez seja justamente nesse ponto que Mártir encontre Ferenczi. Não porque ambos falem simplesmente do trauma. Mas porque ambos parecem perguntar se existe alguma possibilidade de transformar uma herança traumática em testemunho.
