Do trauma ao testemunho: notas para uma leitura do romance de Kaveh Akbar, Mártir, à luz de Ferenczi e da Transmissão Psíquica

Trabalho final de semestre apresentado à Formação Freudiana, no módulo “Ferenczi entre nós”, coordenado pelo Prof. Alexandre Costa (julho 2026).

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“Há livros que chegam exatamente quando determinadas perguntas já estão sendo formuladas em nós. Talvez não tragam respostas. Mas reorganizam as perguntas.”

Apresentação

Mártir, romance de estreia de Kaveh Akbar, acompanha a trajetória de Cyrus Shams, um jovem poeta iraniano-americano cuja vida é atravessada por perdas precoces, deslocamentos culturais e pela constante tentativa de atribuir sentido à experiência da morte. Filho de imigrantes iranianos, Cyrus cresceu marcado pela ausência materna e por uma história familiar profundamente afetada pela guerra, pelo exílio e pelas rupturas que acompanham os processos migratórios.

Em recuperação do alcoolismo e buscando reorganizar sua própria existência, Cyrus desenvolve uma intensa fascinação pela figura dos mártires. Sua busca o conduz por histórias de pessoas marcadas pelo sacrifício, pela morte e pela memória, enquanto a narrativa alterna diferentes tempos e perspectivas, revelando como acontecimentos históricos e familiares continuam produzindo efeitos muito além da geração que os viveu.

Ao longo do romance, questões como pertencimento, identidade, luto, espiritualidade, dependência química e criação artística entrelaçam-se na tentativa de responder a uma pergunta fundamental: como construir uma vida quando a própria história parece ter sido escrita por perdas anteriores ao sujeito?

Mais do que narrar uma trajetória individual, Mártir convida o leitor a refletir sobre aquilo que permanece vivo nas famílias mesmo quando já não pode ser nomeado. É justamente essa dimensão que torna o romance um terreno fértil para o diálogo com a psicanálise, especialmente com os estudos de Sándor Ferenczi sobre trauma, desmentido e transmissão psíquica.

Foi nesse contexto que o livro chegou até mim.

Recentemente, recebi Mártir, lançamento da Editora Rocco, por meio do Clube do Livro que coordeno em parceria com a editora. A coincidência temporal dessa leitura chamou minha atenção. Nas últimas semanas eu estava profundamente imersa nos estudos de Sándor Ferenczi, sobretudo em sua teoria do trauma, da confusão de línguas e do desmentido, desenvolvendo reflexões sobre transmissão psíquica, violência e constituição do sujeito.

Foi justamente nesse contexto que o romance começou a me interpelar. Não porque ilustrasse conceitos psicanalíticos de maneira direta, mas porque parecia colocar em cena uma questão que atravessa tanto a literatura quanto a clínica:

O que acontece quando uma experiência traumática não encontra um testemunho capaz de reconhecê-la?

Essa pergunta reposiciona a compreensão tradicional do trauma. Em Ferenczi, o trauma não se reduz ao acontecimento violento. O que verdadeiramente traumatiza é a impossibilidade de encontrar um outro que reconheça a experiência vivida. O sofrimento torna-se insuportável quando é desmentido, silenciado ou transformado em algo que não pode ser inscrito na linguagem.

Essa formulação produz um efeito importante sobre a compreensão da transmissão entre gerações.Costuma-se dizer que o trauma é transmitido. A literatura psicanalítica desenvolveu amplamente essa ideia ao mostrar que lutos interrompidos, segredos familiares, violências não simbolizadas e silêncios persistem muito além daqueles que originalmente os viveram. A transmissão psíquica não consiste na passagem literal dos acontecimentos, mas na circulação de lugares, afetos, identificações e posições subjetivas que antecedem o nascimento de cada sujeito.

No entanto, durante essa aproximação inicial com Mártir, uma outra hipótese começou a ganhar força. Talvez o que seja transmitido entre gerações não seja apenas o trauma.

Talvez também se transmita a necessidade de testemunhá-lo.

Essa hipótese nasceu de uma curiosa aproximação etimológica. A palavra mártir deriva do grego martys, cujo significado original é testemunha. Antes de designar aquele que morre por uma causa, o mártir era aquele que testemunhava. Essa diferença é decisiva pois ela desloca a discussão da morte para a linguagem; do sofrimento para sua inscrição simbólica; da violência para a possibilidade de narrá-la.

Sob essa perspectiva, o romance parece abrir uma questão que ultrapassa a experiência individual de seus personagens e toca um problema central da clínica contemporânea:

seria possível compreender determinados sujeitos como herdeiros não apenas de traumas, mas também da tarefa de testemunhar aquilo que permaneceu sem palavra nas gerações anteriores?

Essa pergunta dialoga profundamente com Ferenczi. Se o trauma se instala quando a experiência não encontra reconhecimento, talvez a elaboração psíquica dependa precisamente da possibilidade de construir um testemunho. Não um relato factual, mas uma narrativa capaz de reinserir o sofrimento no campo da linguagem e da relação com o outro.

Essa hipótese também desloca a própria compreensão da transmissão psíquica. Ao longo dos últimos anos, tornou-se relativamente comum afirmar que os traumas atravessam gerações. Menos frequente, entretanto, é perguntar o que exatamente é transmitido.

Seriam apenas os efeitos da violência? Ou haveria também uma transmissão da necessidade de lembrar, narrar e dar testemunho daquilo que permaneceu excluído da história familiar?

Essa distinção talvez seja fundamental. Enquanto a transmissão do trauma tende a enfatizar a repetição do sofrimento, a hipótese aqui proposta introduz uma dimensão ética.

Ela não pergunta apenas como o sofrimento se perpetua, mas o que cada geração faz com a herança que recebeu.

Essa questão aproxima a psicanálise da literatura. Os grandes romances frequentemente não narram apenas acontecimentos. Narram sujeitos que tentam encontrar uma linguagem para experiências que pareciam destinadas ao silêncio.

Talvez seja justamente nesse ponto que Mártir encontre Ferenczi. Não porque ambos falem simplesmente do trauma. Mas porque ambos parecem perguntar se existe alguma possibilidade de transformar uma herança traumática em testemunho.

E talvez essa seja uma das tarefas mais profundas da clínica psicanalítica. Não apagar o trauma nem eliminar a falta; mas permitir que aquilo que permaneceu sem testemunha encontre, finalmente, uma voz.

As reflexões que seguem não pretendem oferecer uma interpretação definitiva do romance. Trata-se, antes, de um ensaio teórico suscitado pelo encontro entre a literatura e a psicanálise, no qual a obra de Kaveh Akbar funciona como interlocutora para pensar uma questão que talvez mereça maior desenvolvimento no campo psicanalítico: se a transmissão entre gerações não envolve apenas a repetição do trauma, mas também a herança da tarefa de testemunhá-lo.

I. Do trauma ao desmentido: Ferenczi e a transmissão de um vazio de testemunho

Durante grande parte da história da psicanálise, o trauma foi pensado a partir da centralidade do acontecimento. Ainda que as formulações freudianas tenham se deslocado significativamente ao longo de sua obra da teoria da sedução às elaborações sobre a realidade psíquica, permaneceu em aberto uma questão decisiva: o que, afinal, confere potência traumática a uma experiência? Seria a violência objetiva do acontecimento? A intensidade da excitação que excede a capacidade de elaboração do aparelho psíquico? Ou a significação que o sujeito lhe atribui posteriormente?

A originalidade de Sándor Ferenczi consiste justamente em redirecionar essa pergunta.

Mais do que investigar o acontecimento traumático em si, Ferenczi interroga as condições relacionais que permitem, ou impedem, que uma experiência encontre inscrição psíquica.

O centro do trauma deixa de ser o fato vivido e passa a localizar-se na resposta do outro diante desse fato. O que se revela devastador não é apenas a violência sofrida, mas a impossibilidade de encontrar uma alteridade capaz de reconhecer a verdade da experiência.

Essa inflexão teórica alcança sua formulação mais radical em Confusão de Línguas entre os Adultos e a Criança (1933). Ali, Ferenczi descreve o encontro traumático como um desencontro entre duas linguagens heterogêneas. A criança dirige-se ao adulto por meio da linguagem da ternura, da confiança e da dependência. O adulto, entretanto, responde a partir da linguagem da paixão, do poder, da sexualidade ou da violência. Não se trata apenas de uma diferença de intenções, mas de uma ruptura na própria possibilidade de comunicação. A criança dirige uma demanda de cuidado e recebe, em resposta, uma experiência para a qual ainda não dispõe de recursos simbólicos.

Entretanto, limitar o trauma à invasão produzida pelo adulto seria reduzir o alcance da elaboração ferencziana.

A verdadeira ruptura ocorre em um segundo momento, quando o sujeito procura compartilhar a experiência vivida e encontra, em vez de acolhimento, o desmentido. O adulto nega o acontecimento, minimiza sua gravidade, silencia a violência ou atribui ao próprio sujeito a responsabilidade pelo que ocorreu. O trauma, portanto, deixa de ser apenas uma experiência de excesso e torna-se uma experiência de solidão.

É precisamente nesse ponto que a noção de desmentido adquire sua força clínica. Ao não encontrar um outro que sustente a realidade de sua percepção, o sujeito passa a duvidar de seus próprios sentidos. A confiança na experiência vivida cede lugar à identificação com o agressor, à clivagem do eu e à instalação de formas profundas de dissociação. Não porque o acontecimento tenha desaparecido, mas porque permaneceu sem reconhecimento. O sofrimento deixa de encontrar inscrição simbólica e persiste como uma experiência que não pôde ser compartilhada.

Essa formulação representa uma mudança decisiva para o pensamento sobre o trauma.

Em Ferenczi, a pergunta deixa de ser apenas “o que aconteceu?” e passa a ser “quem pôde testemunhar o que aconteceu?”.

Esse deslocamento possui consequências importantes quando transposto para o campo da transmissão psíquica entre gerações.

Grande parte da literatura dedicada ao tema descreveu como lutos não elaborados, segredos familiares, violências políticas e catástrofes históricas continuam produzindo efeitos muito depois do desaparecimento daqueles que originalmente os viveram. Nicolas Abraham e Maria Torok (1995) demonstraram que experiências impossíveis de simbolizar podem permanecer encapsuladas sob a forma de criptas psíquicas, reaparecendo nas gerações seguintes como fantasmas, sintomas ou identificações enigmáticas. René Kaës (2001; 2005) ampliou essa discussão ao mostrar que o sujeito nasce inserido em alianças inconscientes e contratos psíquicos que antecedem sua própria existência.

Essas contribuições permitiram compreender que a transmissão transgeracional não consiste na passagem literal dos acontecimentos, mas na circulação de posições subjetivas, afetos, interditos e silêncios.

Entretanto, a leitura de Mártir, de Kaveh Akbar, parece autorizar uma pequena ampliação dessa questão.

Se Ferenczi demonstra que o trauma se instala quando uma experiência permanece sem reconhecimento, talvez possamos perguntar se aquilo que atravessa as gerações não seja apenas o trauma, mas a própria ausência desse reconhecimento.

Talvez os descendentes não herdem apenas uma história interrompida. Talvez herdem a posição daqueles convocados a encontrar uma linguagem para aquilo que jamais encontrou testemunha.

Essa hipótese desloca o eixo tradicional das discussões sobre transmissão psíquica. Em vez de pensar apenas na repetição da violência, ela convida a pensar na repetição de uma busca: a busca por uma linguagem capaz de conferir existência simbólica ao que permaneceu excluído da história familiar.

É nesse horizonte que a trajetória de Cyrus Shams pode ser lida. Filho de Roya, morta na derrubada de um avião civil iraniano, e de Ali, que atravessa a vida marcado pelo exílio, pelo alcoolismo e pelo silêncio, Cyrus cresce sem receber uma narrativa capaz de integrar essa perda à história de sua família. A morte da mãe é reduzida ao estatuto de “erro técnico” pela racionalidade geopolítica, enquanto o sofrimento do pai permanece encapsulado em uma existência anestesiada. O que chega ao filho não é uma memória compartilhada, mas um vazio narrativo.

Sua insônia persistente, sua sensação de irrealidade, sua obsessão por figuras de mártires e sua necessidade de conferir sentido ao sofrimento podem ser compreendidas, nessa perspectiva, menos como a repetição direta de um trauma do que como os efeitos de uma herança marcada pela ausência de reconhecimento.

Talvez seja justamente aqui que Mártir ofereça sua contribuição mais original ao diálogo com a psicanálise. O romance parece sugerir que determinadas gerações não recebem apenas os efeitos de uma violência antiga; recebem também o legado de uma experiência que jamais encontrou reconhecimento.

Mas, se Ferenczi mostrou que o trauma se constitui quando falta uma alteridade capaz de testemunhar a experiência, uma nova questão passa a se impor: o que acontece quando essa ausência de testemunho atravessa gerações inteiras? O que exatamente se transmite quando ninguém pôde reconhecer a experiência inaugural?

É essa pergunta que conduzirá o próximo movimento deste ensaio.

II. Martys: da figura do mártir à função do testemunho

O diálogo entre Mártir e a teoria ferencziana do trauma ganha uma nova espessura quando nos detemos sobre a própria palavra que dá título ao romance. À primeira vista, “mártir”parece remeter a uma figura amplamente conhecida: aquele que aceita a morte em nome de uma crença, de uma causa política ou de um ideal religioso. No imaginário contemporâneo, especialmente após as transformações geopolíticas das últimas décadas, a palavra tornou-se quase indissociável das imagens de sacrifício, terrorismo, fanatismo ou heroísmo. O mártir aparece, assim, como aquele cuja identidade se define pela morte.

Entretanto, a origem da palavra conduz a um horizonte inteiramente diverso. O termo grego martys designava, originalmente, a testemunha. Antes de indicar aquele que morria por uma causa, designava aquele que comparecia para dar testemunho de um acontecimento. A morte somente mais tarde passou a ser associada à figura do mártir, quando determinadas testemunhas foram perseguidas precisamente porque sustentavam publicamente aquilo que haviam visto ou vivido.

Essa distinção etimológica não constitui uma curiosidade histórica; ela altera profundamente o modo como podemos ler o romance de Kaveh Akbar.

Se o sentido originário do mártir é o de testemunha, o centro de gravidade da narrativa desloca-se da morte para a linguagem. A questão deixa de ser “quem está disposto a morrer?” e passa a ser “quem será capaz de testemunhar aquilo que corre o risco de desaparecer da memória?”.

Essa mudança dialoga de maneira surpreendente com a formulação de Ferenczi. Como vimos, o trauma não se instala apenas porque um acontecimento violento ocorreu, mas porque esse acontecimento permaneceu sem reconhecimento. O desmentido impede que a experiência encontre inscrição simbólica e condena o sujeito a carregar, solitariamente, um excesso que não pôde ser compartilhado. Sob essa perspectiva, a testemunha deixa de ser apenas uma figura jurídica ou histórica; ela passa a desempenhar uma função psíquica.

Testemunhar significa oferecer ao sofrimento um lugar na linguagem e, por meio dela, reinseri-lo no campo das relações humanas.

É precisamente essa função que parece organizar a trajetória de Cyrus Shams. Ao longo do romance, Cyrus demonstra uma fascinação quase obsessiva por personagens historicamente reconhecidos como mártires. Seu quarto é ocupado por imagens de figuras que morreram por diferentes causas; seus pensamentos retornam continuamente às narrativas de sacrifício; e seu projeto mais persistente consiste em escrever um livro sobre mártires. Em uma leitura superficial, essa obsessão poderia ser compreendida como manifestação de uma pulsão autodestrutiva ou de uma idealização da morte. O desenvolvimento da narrativa, entretanto, autoriza outra leitura.

Cyrus não parece desejar, primordialmente, a morte. Ele parece desejar que alguma morte, a de sua mãe, a de sua família, a de seu povo, deixe de permanecer sem testemunha.

Essa distinção é decisiva. Roya Shams não desaparece apenas em um acidente aéreo. Sua morte é absorvida pelo discurso burocrático da geopolítica internacional, convertida em erro técnico, em estatística, em dano colateral. O sofrimento singular dissolve-se nalinguagem administrativa do Estado. O desmentido, aqui, não é apenas familiar; é também político e histórico. Não se trata simplesmente de perder uma mãe, mas de perder alguém cuja morte sequer alcança o estatuto de acontecimento plenamente reconhecido.

É nesse vazio narrativo que Cyrus constitui sua subjetividade. Sua busca pelos mártires pode ser compreendida como a tentativa de responder a uma pergunta que jamais lhe foi formulada explicitamente: como transformar uma morte sem testemunho em uma história que possa ser contada?

Talvez seja essa a razão pela qual seu projeto de escrever um livro sobre mártires assume, ao longo do romance, uma importância muito maior do que a de um simples empreendimento literário. A escrita não funciona apenas como elaboração estética. Ela representa uma tentativa de produzir uma narrativa capaz de conferir existência simbólica ao que permaneceu reduzido ao silêncio.

Nesse sentido, Mártir propõe um deslocamento importante. A obsessão de Cyrus pelos mártires deixa de aparecer como fascínio pela morte e passa a revelar uma busca incessante por aquilo que faltou desde o início: uma testemunha capaz de reconhecer uma experiência que permaneceu excluída da história.

É nesse ponto que literatura e psicanálise parecem convergir. Se, para Ferenczi, o trauma persiste quando permanece sem reconhecimento, Mártir parece acrescentar que nenhuma experiência pode aspirar à simbolização enquanto não encontrar uma linguagem capaz de testemunhá-la. A literatura deixa, assim, de ocupar uma posição meramente ilustrativa em relação à clínica. Ela torna-se um dos lugares onde o testemunho pode surgir quando a família, a história ou as instituições falharam em produzi-lo.

Talvez possamos, então, reformular a questão que atravessa este ensaio. Se o trauma depende da existência) de uma testemunha, o problema já não consiste apenas em compreender como uma experiência violenta se produz, mas em perguntar quem poderá reconhecê-la quando esse reconhecimento nunca aconteceu.

A questão deixa de ser apenas a transmissão do sofrimento. Passa a ser a possibilidade mesma de seu testemunho. Mas, se ninguém pôde testemunhar essa experiência, onde ela permanece inscrita? Em que lugar ela continua existindo quando nenhuma palavra conseguiu acolhê-la?

É essa pergunta que conduzirá o próximo movimento deste ensaio.

III. O Corpo como última testemunha: a clínica da simulação e a busca por um lugar de inscrição

Se, como propõe Ferenczi, o trauma se constitui quando a experiência não encontra uma alteridade capaz de reconhecê-la, resta perguntar onde essa experiência continua existindo enquanto nenhuma palavra consegue acolhê-la. Talvez seja precisamente aí que o corpo passe a ocupar uma função decisiva. Antes de poder ser narrado, o sofrimento precisa encontrar algum modo de permanecer vivo. Quando a linguagem falha, é o corpo que conserva aquilo que ainda não pôde adquirir existência simbólica.

É precisamente essa lógica que parece organizar uma das dimensões mais originais de Mártir. Ao longo do romance, Cyrus Shams trabalha em um hospital universitário como paciente simulado, representando diferentes doenças para o treinamento de estudantes de medicina. À primeira vista, trata-se apenas de uma ocupação incomum. À medida que a narrativa avança, porém, esse trabalho revela uma densidade simbólica que ultrapassa em muito sua função institucional.

Não parece casual que Kaveh Akbar tenha escolhido justamente um hospital como cenário para esse exercício de representação. O hospital é, por excelência, o espaço onde o sofrimento precisa tornar-se linguagem. Nenhuma dor existe clinicamente enquanto não puder ser localizada, descrita e nomeada. O paciente/ator é continuamente convocado a responder: de 0 a 10 quanto dói? onde dói? Há quanto tempo? Como dói? A dor só se torna tratável quando encontra uma forma de ser narrada.

Essa exigência institucional contrasta radicalmente com a experiência traumática descrita por Ferenczi. O trauma é precisamente aquilo que permaneceu sem inscrição, sem reconhecimento e sem possibilidade de tradução simbólica. Cyrus passa, então, seus dias emprestando voz e corpo ao sofrimento de outras pessoas, enquanto permanece incapaz de encontrar uma linguagem para a própria história.

Seu trabalho deixa, assim, de ser apenas uma atividade profissional para converter-se em uma metáfora de sua própria condição subjetiva.

Essa metáfora torna-se ainda mais significativa quando lembramos que sua história familiar é marcada por sucessivos desmentidos. A morte de Roya jamais encontrou um espaço coletivo de elaboração. O Estado reduziu o assassinato de centenas de passageiros a um “erro técnico”. O pai respondeu à perda mergulhando no álcool, no trabalho repetitivo e no silêncio. Entre o desmentido político e o desmentido doméstico, Cyrus cresce sem herdar uma narrativa sobre sua origem. Herda apenas seus efeitos.

É nesse contexto que o corpo passa a ocupar uma função que deveria ter pertencido à linguagem. Mais do que registrar um sofrimento, ele passa a testemunhá-lo. O sintoma conserva aquilo que nenhuma memória compartilhada conseguiu reconhecer.

Sob essa perspectiva, a simulação clínica adquire um significado muito mais profundo do que aparenta. Cyrus não representa doenças porque deseja enganar alguém, tampouco porque apresente uma tendência histriônica ou uma necessidade de dramatização. O romance sugere algo muito mais complexo: cada encenação constitui uma tentativa de transformar um sofrimento sem linguagem em uma experiência finalmente reconhecida por um outro.

Em outras palavras, Cyrus não ensaia doenças. Ele ensaia, repetidamente, a possibilidade de ser acreditado.

Essa leitura torna-se particularmente evidente em uma das cenas mais impactantes do romance. Durante uma simulação clínica, ao representar uma paciente acometida por um tumor cerebral terminal, Cyrus rompe inesperadamente o roteiro institucional. Em vez de responder às perguntas previstas pelos estudantes de medicina, dirige-se a uma das examinadoras com uma pergunta absolutamente desconcertante:

“Existe um órgão catastrófico que pulsa o tempo todo? Que pulsa medo, todos os dias, sem parar?”

Nesse instante, a representação entra em colapso. Quem fala já não é o personagem. É o próprio sujeito. A pergunta de Cyrus não pertence ao campo da medicina. Nenhum atlas anatômico é capaz de localizar esse “órgão catastrófico”. Trata-se de uma imagem poética que oferece forma ao que permaneceu sem inscrição desde a infância. O terror herdado da perda da mãe, o silêncio do pai, a insônia crônica e a sensação permanente de irrealidade condensam-se nessa figura impossível: um órgão imaginário que pulsa medo incessantemente porque nunca encontrou uma alteridade capaz de reconhecer sua existência.

Ferenczi descreveu que, diante do desmentido traumático, uma parte do sujeito permanece aprisionada na experiência original, enquanto outra organiza mecanismos de adaptação destinados à sobrevivência psíquica. Cyrus parece viver precisamente essa clivagem. De um lado, observa-se o jovem inteligente, culto e aparentemente funcional, capaz de interpretar com precisão os sintomas exigidos pelo hospital. De outro, permanece um núcleo psíquico ainda preso à catástrofe inaugural, incapaz de transformar sua experiência em narrativa.

O hospital torna-se, assim, um cenário paradoxal. É o lugar onde todos aprendem a reconhecer o sofrimento do outro, enquanto o sofrimento de Cyrus permanece sem diagnóstico possível.

Sob essa perspectiva, Mártir amplia significativamente a reflexão inaugurada por Ferenczi. Se o trauma nasce da ausência de um testemunho, o corpo passa a ocupar provisoriamente essa função. O sintoma deixa de aparecer apenas como efeito da violência traumática e torna-se o lugar onde continua inscrita uma experiência que ainda não encontrou linguagem.

Mas o corpo pode sustentar indefinidamente essa tarefa? O que acontece quando, pela primeira vez, surge alguém capaz de reconhecer aquilo que até então apenas o corpo conseguia testemunhar?

É essa passagem do corpo à alteridade que orientará o próximo movimento deste ensaio.

IV. A alteridade como testemunha: Orkideh e a desconstrução do culto ao martírio

Se o corpo pode conservar, provisoriamente, aquilo que permaneceu sem linguagem, resta ainda uma questão decisiva: o que acontece quando finalmente surge alguém capaz de reconhecer essa experiência? É precisamente essa passagem do corpo à alteridade que organiza o encontro entre Cyrus Shams e Orkideh.

Até esse momento da narrativa, Cyrus permanece aprisionado em um circuito repetitivo no qual todo sofrimento precisa ser transformado em espetáculo para adquirir consistência psíquica. A dependência química, o fascínio pelos mártires históricos, o trabalho como paciente simulado e até mesmo a forma como narra determinados episódios de sua vida obedecem ao mesmo movimento: produzir uma experiência suficientemente intensa para justificar sua própria existência.

Não se trata, contudo, de um desejo consciente de morrer. O romance sugere algo mais complexo. Cyrus procura uma forma de tornar visível aquilo que nunca foi visto.

Sua obsessão pelo martírio nasce menos da morte do que da invisibilidade. Se sua mãe desapareceu do mundo reduzida a uma estatística militar, talvez apenas uma morte extraordinária pudesse devolver alguma espessura simbólica àquela história.

É nesse contexto que ocorre seu encontro com Orkideh. A artista iraniana, em estágio terminal de câncer, transforma seus últimos dias de vida em uma instalação artística aberta ao público. Instalada no Museu do Brooklyn, recebe diariamente visitantes dispostos simplesmente a permanecer com ela. Sua obra não consiste em representar a morte; consiste em habitá-la diante do olhar do outro.

A escolha desse dispositivo é particularmente significativa. Enquanto Cyrus procura construir sentido por meio da idealização do martírio, Orkideh realiza exatamente o movimento inverso. Ela recusa qualquer dimensão heroica da própria doença. Não deseja tornar-se exemplo, símbolo ou mártir. Existe apenas como alguém que morre sem transformar essa experiência em espetáculo.

Essa diferença produz uma ruptura decisiva na economia psíquica do protagonista.

Quando Cyrus confessa que “anda praticando”, imaginando continuamente a própria morte, Orkideh responde com uma simplicidade desconcertante. Ao lembrar-lhe que ela, diferentemente dele, está efetivamente morrendo, desmonta toda a arquitetura imaginária que sustentava sua relação narcísica com o sofrimento.

A morte deixa de ser conceito e volta a ser experiência. É justamente aqui que a reflexão de Ferenczi adquire sua maior potência clínica. A reparação do trauma não depende, em primeiro lugar, da interpretação, mas da possibilidade de encontrar uma alteridade capaz de permanecer diante da dor sem negá-la, sem banalizá-la e sem apropriá-la para si.

Orkideh realiza exatamente esse gesto. Ela escuta Cyrus. Mas recusa ocupar o lugar de espectadora fascinada por seu sofrimento. Recusa também alimentar seu ideal de martírio.

Sua presença inaugura uma forma inteiramente distinta de testemunho: um testemunho que reconhece a dor sem convertê-la em identidade.Essa transformação torna-se ainda mais evidente quando Orkideh confronta Cyrus com aquilo que identifica como uma espécie de “culto ao martírio”. O comentário poderia facilmente ser compreendido como um julgamento cultural. Entretanto, Akbar conduz a cena em outra direção. O problema não é a cultura iraniana, mas a maneira como Cyrus organizou subjetivamente sua herança traumática.

A morte havia se tornado sua única gramática possível. Enquanto nenhuma outra linguagem estivesse disponível, permaneceria condenado a repetir o trauma sob formas cada vez mais sofisticadas.

É significativo que, diante dessa interpelação, Cyrus reconheça pela primeira vez a violência dos estereótipos que atravessam sua identidade. Crescido nos Estados Unidos, distante da língua persa e da religiosidade de seus antepassados, percebe que qualquer tentativa de transformar sua morte em gesto heroico seria inevitavelmente capturada pelo imaginário ocidental sob o signo do terrorismo.

O romance revela, assim, uma dimensão política do testemunho. Nem toda morte recebe o mesmo estatuto simbólico. Algumas são imediatamente reconhecidas como tragédia.

Outras permanecem condenadas ao desmentido. A morte de Roya pertence precisamente a essa segunda categoria.

O encontro com Orkideh desloca Cyrus dessa lógica. Pela primeira vez, ele percebe que sua tarefa não consiste em produzir uma morte suficientemente significativa, mas em encontrar uma linguagem capaz de devolver existência simbólica a uma vida que nunca chegou a ser verdadeiramente narrada.

Essa transformação aprofunda-se nas páginas finais do romance. Após sua morte, Cyrus lê o obituário deixado por Orkideh. Em vez de construir uma despedida monumental, a artista faz exatamente o contrário. Reconhece que realizou muitas obras, algumas boas, outras nem tanto. Recusa qualquer idealização retrospectiva de sua trajetória e insiste em ser lembrada simplesmente como alguém que viveu. Entre todas as imagens que escolhe para permanecer, destaca apenas um pequeno ramo de lavanda carregado no bolso.

Esse gesto modifica retrospectivamente todo o romance. Orkideh ensina que a dignidade da existência não depende de transformar a dor em monumento. Depende da possibilidade de continuar habitando a vida apesar dela.

Quando escreve que “um alfabeto, tal como a vida, é um conjunto finito de formas com as quais se pode produzir quase tudo”, oferece a Cyrus algo que nenhuma teoria havia conseguido oferecer: a experiência de que a linguagem não elimina o trauma, mas permite reorganizar sua relação com ele.

A dor permanece. Mas deixa de ocupar o lugar de único organizador da existência.

Orkideh não restitui Roya. Não desfaz o passado. Não cura Cyrus. Sua presença realiza algo muito mais decisivo: oferece a alteridade que durante toda a sua história permaneceu ausente. É somente porque alguém sustenta sua palavra sem desmenti-la que a experiência pode começar, enfim, a deslocar-se do sintoma para a narrativa.

Mas essa transformação faz surgir uma nova questão. Se é a presença de uma alteridade que torna possível transformar o sofrimento em narrativa, então o que realmenteatravessa as gerações? O trauma em si ou a necessidade de que alguém, finalmente, possa testemunhá-lo?

É essa pergunta que conduzirá o próximo movimento deste ensaio.

V. A transmissão da função de testemunho: da herança traumática ao trabalho de simbolização

Grande parte da literatura psicanalítica dedicada aos fenômenos transgeracionais concentrou seus esforços em compreender aquilo que atravessa as gerações. Nicolas Abraham e Maria Torok (1995) mostraram como segredos familiares podem constituir criptas psíquicas que retornam sob a forma de fantasmas. René Kaës (2001; 2005) descreveu os pactos denegativos e as alianças inconscientes que antecedem o nascimento do sujeito. Faimberg (2001) evidenciou as identificações alienantes, enquanto diversos autores demonstraram que experiências traumáticas continuam produzindo efeitos muito depois do desaparecimento daqueles que originalmente as viveram.

Essas contribuições transformaram profundamente a compreensão da transmissão psíquica ao demonstrar que o sujeito nunca herda apenas uma história individual. Antes mesmo de falar em nome próprio, ele já ocupa um lugar em uma trama de silêncios, identificações e expectativas que o precede.

A leitura de Mártir, entretanto, parece deslocar discretamente essa tradição ao introduzir uma pergunta diferente: o que exatamente circula entre as gerações?

Transmitimos acontecimentos traumáticos? Transmitimos silêncios? Ou transmitimos, sobretudo, uma tarefa ainda inacabada?

A hipótese desenvolvida ao longo deste ensaio aproxima-se dessa terceira possibilidade. Se Ferenczi mostrou que o trauma se constitui quando a experiência permanece sem reconhecimento, talvez aquilo que atravesse as gerações não seja apenas o sofrimento, mas a necessidade de produzir, para ele, uma testemunha. O que persiste não é simplesmente o acontecimento traumático; persiste aquilo que permaneceu sem inscrição simbólica.

Nesse sentido, o herdeiro não recebe apenas uma memória dolorosa. Recebe uma posição diante dela. Recebe um trabalho ainda por realizar. É precisamente essa posição que parece organizar a trajetória de Cyrus Shams.

Sua obsessão pelos mártires, sua compulsão pela escrita, sua necessidade de compreender a morte da mãe e sua aproximação constante do sofrimento deixam de aparecer como simples manifestações de uma repetição traumática. Pouco a pouco, tornam-se inteligíveis como a tentativa de realizar aquilo que sua genealogia não conseguiu concluir.

Roya morreu antes de poder narrar sua própria história. Ali sobreviveu, mas permaneceu aprisionado em um silêncio que o alcoolismo apenas tornou mais espesso.

Entre uma morte sem testemunho e uma sobrevivência sem palavras, Cyrus herda menos um trauma do que uma tarefa: oferecer linguagem ao que permaneceu interrompido.

Essa leitura encontra uma formulação particularmente expressiva nos escritos deixados por Ali Shams. Ao refletir sobre sua rotina em uma granja industrial, ele observa que a ciência acumula conhecimento porque cada geração transmite à seguinte aquilo que descobriu. O sofrimento humano, ao contrário, parece condenado a recomeçar continuamente, como se cada sujeito precisasse descobrir sozinho aquilo que incontáveis outros já viveram antes.

À primeira vista, essa reflexão conduz ao pessimismo. Entretanto, Mártir parece responder justamente a esse impasse. Se a dor não pode ser transmitida como conhecimento, talvez possa ser transmitida como testemunho.

É nesse ponto que a escrita de Cyrus adquire uma função que ultrapassa a literatura. Seu livro sobre os mártires nunca foi apenas um livro sobre personagens históricos. Era, desde o início, uma tentativa de devolver existência simbólica à morte da mãe e, por extensão, a todas as vidas que permaneceram sem testemunha.

Talvez seja esse o deslocamento que o romance permite introduzir na teoria da transmissão psíquica. Aquilo que circula entre gerações não é apenas um conteúdo traumático. Circula também uma função. Uma posição subjetiva. Uma responsabilidade simbólica.

Há sujeitos que repetem essa herança. Há sujeitos que adoecem sob seu peso. Há sujeitos que permanecem identificados ao silêncio. Mas, ocasionalmente, surge alguém capaz de transformar essa herança em linguagem. É essa possibilidade que Cyrus começa, finalmente, a encarnar.

Seu destino deixa de consistir na repetição da violência herdada para assumir a forma de um trabalho de simbolização. Ele não pode reparar o passado nem desfazer a perda. Pode apenas escrever aquilo que permaneceu sem voz.

Se essa hipótese se sustenta, então talvez a transmissão psíquica não deva ser pensada apenas como a continuidade do trauma, mas como a circulação de uma função de testemunho que cada geração é convocada a assumir de maneira singular.

Resta, porém, uma última questão. Se essa função pode finalmente ser realizada, o sujeito permanece para sempre identificado a ela? Ou existe um momento em que a testemunha pode, enfim, ser dispensada de seu mandato?

VI. Quando a testemunha pode descansar: o fim do mandato transgeracional em Mártir

Ao longo deste ensaio, procurou-se acompanhar o deslocamento progressivo de uma pergunta. Partimos da formulação ferencziana segundo a qual o trauma não se constitui apenas pela violência do acontecimento, mas pela ausência de uma alteridade capaz de reconhecer essa experiência. Em seguida, a leitura de Mártir permitiu formular uma hipótese complementar: talvez aquilo que se transmita entre as gerações não seja apenas o trauma, mas também a necessidade de produzir um testemunho para aquilo que permaneceu sem inscrição.

Essa hipótese conduz a uma consequência decisiva. Se o que circula entre as gerações é uma função de testemunho, então a repetição deixa de ser compreendida apenas como o retorno compulsivo do sofrimento. Ela pode ser pensada como a tentativa, incessantemente renovada, de concluir um trabalho de simbolização que permaneceu interrompido.

Durante quase todo o romance, Cyrus Shams ocupa exatamente essa posição. Sua vida organiza-se em torno de uma pergunta silenciosa: como oferecer palavras para uma morte que jamais encontrou reconhecimento?

A morte de Roya foi reduzida à linguagem burocrática da geopolítica. O silêncio de Ali prolongou esse apagamento no interior da própria família. Entre o desmentido público e o desmentido doméstico, Cyrus cresce investido da tarefa de fazer existir uma história que nunca chegou a ser contada.

Durante muito tempo, acredita que essa tarefa exige tornar-se ele próprio um mártir. Sofrer, aproximar-se da morte e transformar a própria existência em sacrifício pareciam constituir a única forma de permanecer fiel aos mortos.

O encontro com Orkideh e, posteriormente, a possibilidade de narrar sua história a Zee (seu grande amor) deslocam radicalmente essa lógica. Pela primeira vez, Cyrus descobre que testemunhar não exige repetir a violência. Exige apenas que ela encontre uma linguagem e uma alteridade capazes de sustentá-la.

É nesse ponto que uma das passagens mais discretas do romance adquire sua maior densidade.

Ao final de sua travessia, Cyrus formula uma oração extremamente simples:

“Me permita ser dispensado.”

Essa frase reorganiza retrospectivamente todo o percurso do romance. Ela não exprime o desejo de esquecer. Não representa uma recusa da memória. Muito menos significa reparar aquilo que permaneceu perdido. Ela expressa algo muito mais profundo: o desejo de deixar de ocupar a posição daquele que precisa continuar carregando, sozinho, uma tarefa herdada de gerações anteriores.

Talvez seja precisamente isso que caracteriza o término de um mandato transgeracional.

O trauma permanece como parte da história. A perda continua irrecuperável. Nada restitui Roya. Nada apaga o exílio. Nada desfaz o desmentido. O que se transforma é a posição subjetiva diante dessa herança.

Quando a experiência finalmente encontra uma testemunha, o herdeiro deixa de ser o único responsável por sustentá-la. A função que durante tanto tempo organizou sua existência pode, enfim, ser concluída.

É nesse sentido que Mártir aproxima-se da ética clínica de Ferenczi. O trabalho analítico não consiste em devolver ao sujeito uma infância intacta nem em eliminar os efeitos do trauma. Consiste em oferecer as condições para que aquilo que permaneceu sem linguagem possa adquirir forma narrativa e, justamente por isso, deixe de exigir sua repetição incessante.

Talvez seja essa a contribuição mais original que podemos, ao ler Mártir, propor ao debate sobre a transmissão psíquica: o legado transgeracional não consiste apenas na repetição dos traumas. Consiste também na transmissão de uma função ética que pode, finalmente, ser realizada. Quando isso acontece, a herança deixa de operar como destino e passa a constituir uma história.

É por isso que Cyrus não se torna um mártir. Torna-se escritor!

A diferença é decisiva: o mártir entrega o corpo para que a história sobreviva. O escritor oferece palavras para que a vida possa continuar.

Sob essa perspectiva, a frase de Clarice Lispector que encerra o romance, “Por enquanto é tempo de morangos”, adquire uma ressonância que ultrapassa o campo literário. Depois da violência, do exílio, do desmentido e da repetição, o romance não celebra a superação do trauma. Celebra algo mais discreto e, talvez por isso mesmo, mais difícil: a possibilidade de voltar a habitar o presente. Não porque o passado tenha desaparecido. Mas porque, finalmente, a testemunha pôde descansar.

Referências

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